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"Motorista dorme ao volante e provoca duas vítimas fatais"
Para a maioria das pessoas este foi mais uma banalidade comum que acontece quase todos os dias no Brasil.
Para mim, foi o fim...
Meus pais estavam voltando de um aniversário, passavam das duas da madrugada. Era meu pai que dirigia. Do nada um caminhão invadiu a pista onde eles estavam e bateram de frente. Meu pai nem teve tempo de reagir, morreu na hora. Minha mãe não conseguiu sair das ferragens, morreu minutos depois. O motorista do caminhão tinha dormido no volante, não dormia a mais de 72 horas.
O pior de tudo foi quando levantei da cama no dia seguinte. Normalmente quando acordo, sentia o cheiro do café forte que minha mãe fazia para meu pai, ouvindo as notícias no rádio ou as músicas de Adriana Calcanhoto. Meu pai saía da cama e ia direto tomar banho de água fria, nunca consegui entender isso... Estranhei a casa em silêncio.
Saí do quarto, já pronto e uniformizado, passei pelo quarto dos meus pais, a cama estava do mesmo jeito do dia anterior, gelei.
Não estavam na cozinha, nem na sala, comecei a me arrepiar, perguntei em voz alta, não tive resposta, quando olhei na garagem, o carro não estava lá. Foi nessa hora que senti meu coração doer, a apertar. Comecei a entrar em pânico, não parava de pensar: "cadê eles?"
Não sentia meus pés, tudo começou a rodar e escurecer, meu coração continuava a doer, cada vez mais forte, não conseguia raciocinar. Sentei no sofá, respirei fundo, tentava organizar minhas idéias. Peguei o telefone e comecei a ligar para o celular do meu pai. Nada, celular desligado. Liguei para o da minha mãe, ninguém atendia. Às sete e quinze o telefone tocou, eu suava gelado, em segundos pensei que fosse meu pai ligando dizendo que dormira na casa do aniversariante pois estava muito tarde para dirigir. Meu coração aliviou, comecei a relaxar, a afastar idéias ruins.
Atendi e era o gerente da loja do meu pai, perguntando a que horas meu pai iria abrir a livraria, como era sesta-feira e ele não havia chegado, resolveu ligar. Expliquei toda a situação ao Marcos, gerente da loja e amigo do meu pai. Ele me disse que sabia quem era o aniversariante e iria buscar informações.
O segundo telefonema foi da secretária da minha mãe, perguntando a que horas ela saíra de casa, pois o consultório estava começando a lotar. Novamente expliquei a situação e ela começou a se preocupar, pois como eu, sabia que era muito estranho.
Marcos, que conhecia meu pai a mais de vinte anos, retornou a ligação, sua voz estava diferente, disse que irai até em casa e que precisava falar comigo. Nossa, nessa hora eu fiquei meio que surdo, parece que eu estava em outro lugar, não sentia minhas pernas, nem meu corpo, nunca havia sentido isso.
Minutos depois, ao abria a porta, olhei no rosto do Marcos e tive a certeza, nunca mais iria ver meus pais.
Isso foi a uns quatro meses...
Minha vida se transfomara de tal forma, piores pensamentos. Mataram minha vida. Desabei em profunda tristeza, não tive vontade de me matar, não pela coragem, mas por ter me entregado. Não queria ver amigos, ouvir vozes, ver pessoas, conversar, rir, pensar...
Com certeza passei quase todos os dias chorando, perguntando a razão da morte deles. Meu coração não parava de doer. Não fui ao enterro dos meus pais. Soube que o caixão não iria abrir, tal foi o estado deles.
Os dias passando eram cada vez mais insuportáveis, sabia que não havia como eles voltarem, rezei a Deus, orei para meus pais, falava constantemente pensando neles, rezei para ser meu pesadelo e que iria acordar. Mas de nada adiantava.
Uma amiga da minha mãe, que era psicóloga e que me conhecia desde bebê, me aconselhou muito, chorei nos seus abraços, nas suas palavras, no seu conforto. Por dias fiquei na minha casa, sozinho. Minha família não me queria deixar só por temer que eu faria alguma loucura.
Morei por um tempo na casa da Luciana, a psicóloga. Tentei me readaptar, mas vez ou outra eu acabava voltando para minha casa. Tentei morar com meu avô, mas ele tinha sua própria vida e seus problemas de saúde.
A senhora Luciana ao me ver do jeito que eu estava, me sugeriu um novo recomeço, uma nova vida.
Não iria esquecer o passado, nem meus pais. Eles estariam sempre comigo, onde quer que eu vá. Mas com a morte deles eu estava a beira de uma depressão sem volta. Ouvi seus conselhos, relutei suas idéias, não estava aceitando o fato de sair da minha casa, de ela ser vendida. O dinheiro não me importava e sim o conforto que ela me trazia, era a casa que trazia meus pai a mim.